segunda-feira, 30 de março de 2015

Práticas Devocionais do Período Quaresmal e da Semana Santa

“Serão varonis essas devoções, sempre que as pratique um varão..., com espírito de oração e penitência” (São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 574)

No período quaresmal e nos dias da Semana Maior, são notados, em inúmeras comunidades, alguns atos piedosos que são celebrados tradicionalmente.  Dizendo respeito aos atos de piedade, o Concílio Vaticano II os recomenda, desde que estejam em conformidade com as normas da Igreja, e com a sua Liturgia. “Os atos de piedade do povo cristão, conquanto conformes às leis e normas da igreja, são muito de se recomendar [...] importa, porém, ordenar esses atos de piedade, levando em conta os tempos litúrgicos, de modo que estejam em harmonia com a Sagrada Liturgia, nela se inspirem e a ela, por sua natureza muito superior, conduzam o povo cristão” (Sacrosanctum Concilium, 13).

Nos atos piedosos que verificamos no tempo litúrgico em que nos encontramos e naquele que há de vir, podemos notar a total coerência à espiritualidade do tempo, bem como uma fidelidade às normas eclesiais, portanto são dignos de exaltação e de propagação, uma vez que “a piedade popular penetra delicadamente a existência pessoal de cada fiel e, ainda que não se viva em uma multidão, não é uma ‘espiritualidade de massa’” ( Documento de Aparecida, 261). Ainda temos que levar em consideração que “a piedade popular é uma maneira legítima de viver a fé” (Documento de Aparecida, 264). O próprio Catecismo da Igreja Católica ensina que “além da liturgia, a vida cristã se nutre de formas variadas da piedade popular, enraizadas em suas diferentes culturas” (Catecismo da Igreja Católica, 1679). 

Dentre os inúmeros atos de piedade que são celebrados no período da quaresma e da Semana Santa, podemos destacar o exercício da via sacra, a meditação das sete dores de Maria Santíssima, bem como a meditação das sete últimas palavras do Redentor na Cruz, além das procissões, como a do encontro e a do enterro, sendo que em alguns lugares essa última é precedida do descendimento do Senhor do madeiro da Santa Cruz. 


O exercício da via sacra é um ato piedoso em que mentalmente, meditando sobre a Paixão de Cristo, os fiéis percorrem os momentos finais da vida do Redentor, divididos em quatorze estações. Tem suas origens no início do segundo milênio, e as estações foram sendo definidas aos poucos. No século XVI já encontramos a via-sacra com as estações que atualmente são meditadas. “É de notar que na Sexta-feira Santa de 1991 e 1992 o S. Padre João Paulo II, ao realizar o exercício da Via Sacra no Coliseu de Roma, quis alterar o conteúdo das respectivas estações, substituindo as cenas não incluídas no Evangelho por outras, tiradas do texto sagrado [...] Esta nova ordem é certamente bela e apta a inspirar a meditação dos fiéis. Não consta que tenha sido promulgada pela autoridade da Igreja para o roteiro da Via Sacra realizada fora de Roma. Como quer que seja, fica a critério de cada fiel ou cada grupo de fiéis assumir a nova sequência no exercício da sua devoção, pois, como dito, o que importa na Via Sacra é meditar a Paixão do Senhor Jesus. Tem sido costume acrescentar às quatorze estações uma décima Quinta, destinada a contemplar a ressurreição de Cristo, visto que paixão, Morte e Ressurreição constituem um só Mistério de Páscoa.” (D. Estevão Bettencourt, 1993). 

Outro ato de piedade do período quaresmal é a meditação das sete dores e amarguras que padeceu Maria Santíssima, devoção que remota ao século XIII. Esse piedoso ato consta da meditação de sete episódios da vida de Maria Santíssima, marcados pela dor e pela amargura. São essas as passagens: A profecia do velho Simeão sobre Nosso Senhor; a fuga da Sagrada Família para a terra do Egito; o desaparecimento do Menino Jesus durante três dias; o encontro de Maria Santíssima e Nosso Senhor com a cruz às costas; a agonia e morte de Nosso Senhor; a retirada do corpo do Senhor da Cruz e a colocação do mesmo nos braços de Maria Santíssima e o sepultamento de Nosso Senhor. 

Em algumas localidades preserva-se o belíssimo exercício de meditar as últimas palavras que Nosso Senhor proferiu no alto da Santa Cruz. Os evangelistas tiveram o cuidado de registar sete frases proferidas pela sacrossanta boca de Nosso Senhor enquanto pendia Ele da Cruz. Essas frases são dignas de meditação, e muitas comunidades o fazem, durante o período quaresmal e também na Semana Santa. Em algumas localidades tal meditação é tão exaltada que existe o Sermão das Sete Palavras. 

As procissões paralitúrgicas, que acontecem geralmente na Semana Santa, fazem memória à Paixão do Redentor bem como à participação da Santíssima Virgem na redenção do mundo. Essas procissões, geralmente, conduzem as imagens de Nossa Senhora das Dores e de Nosso Senhor, representado em algum instante da Paixão, como o Senhor da Coluna, fazendo menção aos açoites que recebeu; Senhor da Cana Verde, fazendo menção aos opróbrios e à coroação de espinhos; Senhor dos Passos, fazendo menção ao caminho do Calvário; Senhor Morto, fazendo menção á morte na Cruz.  Essas procissões, geralmente, são acompanhadas de um sermão que alude o mistério que ali é mostrado. Deste modo, quando se acompanha as procissões do Senhor da Coluna, ou do Senhor da Cana Verde, ouve-se o sermão do Pretório, quando se faz menção ao julgamento do Senhor. As procissões do Senhor dos Passos e da Senhora da Dores são culminadas com o sermão do Encontro. A procissão do Senhor Morto, também, em alguns locais é precedida pelo sermão do descendimento da Cruz, aí é meditado a passagem que o corpo morto de Nosso Senhor é despregado e descido da Cruz. Há também os chamados sermões de dores ou de soledade, que são ouvidos nas procissões de Nossa Senhora das Dores. 

Que esses atos piedosos possam ser perpetuados em nossas comunidades, pois além de serem um precioso tesouro, como ressaltou Bento XVI (Cf. Documento de Aparecida, 258), são “no ambiente de secularização uma poderosa confissão do Deus vivo que atua na história e um canal de transmissão da fé.” ( Documento de Aparecida, 264).

Seminarista Thomas

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